segunda-feira, 21 de maio de 2012

Letras de que me recordo

Desde que te gostei,
Uns bons anos passaram,
Mas nunca esquecerei
As letras que desfilaram.

Descreviam momentos,
Sonhos e emoções,
De uma forma tão livre
Que só sei recordações.

Sinto que não sinto.
Não como outrora.
Falta-me aquele ímpeto
De deitar cá p'ra fora.

Escrever, até escrevo.
Um pouco a medo, talvez.
Só aumenta o relevo,
Da liberdade, outra vez.

Coloco-me numa prisão,
Descrevo o céu incompleto.
Tal como descreve o chão,
Quem só olha para o teto.

Sobrevalorizo quem lê,
Ainda que só leia eu.
Não sei bem porquê,
Este cisma que me deu.

Quando olho para trás,
Inspiro-me no que já fiz.
Sim, sei como se faz.
É o passado que o diz.

Escrever, até escrevia.
Um pouco a medo, verdade.
Mas caso não fazia,
Do resto da humanidade.

N.A.: Nada contra quem lê, apenas divagações de há uns meses atrás.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Procuro, Desespero

- E aí eu perguntei-lhe o que queria, e ele disse que não sabia! - exclamou ele para o auscultador, sem conseguir deixar escapar um pouco de descontrolo.
- Tem calma Artur, tudo se vai resolver! - disse ela, mordendo o lábio inferior, tentando manter-se calma - Onde é que ele está? 
- Já to disse por três vezes! Já corri isto tudo... - vociferou ele, apercebendo-se que levantou o tom de voz mais do que desejava.
- Artur... - suplicou ela, não conseguindo já esconder a sua preocupação.
- ...n-não o encontro em lado nenhum. - disse ele desesperado.
Tremia de nervosismo, mais do que alguma vez julgara possível. Sempre fora tão controlado, mas perante uma situação daquelas faltava-lhe o controlo. Quem é que conseguiria controlar-se depois de ter perdido o filho de vista daquela maneira, já havia uns longos 30 minutos.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Encontro de Gerações

Dois rapazes corriam pela sala, um perseguindo o outro, numa agitação desenfreada que contagiava todos à sua volta, à medida que o fugitivo circundava a mesa grande, fazia fintas por detrás das cadeiras e utilizava os corpos dos adultos como manobra de diversão para se escapar, sendo rapidamente seguido pelo outro rapaz numa marcação cerrada que não deixava antever quem teria mais resistência. Nos breves momentos de pausa que faziam, em lados opostos de um qualquer obstáculo que lhes aparecia no caminho, eles olhavam-se e riam, ofegantes, tentando predizer qual a direcção que o adversário iria tomar. E tal como tinham parado, já estavam numa correria de novo, sem se importarem com as vozes das suas mães pedindo-lhes que se acalmassem um bocadinho, num tom de voz que oscilava entre a zanga e a súplica.

Assim continuariam, até à exaustão ou alguma escorregadela quebrar a brincadeira, não fosse a intervenção sábia do seu avô para pôr cobro à correria:
- Vamos a abrandar meninos - disse-lhes, levantando um pouco a voz para se fazer ouvir - venham cá que tenho algo para vos oferecer aos dois.
Após um momento de indecisão, em que pararam a fitar-se mais uma vez, os curiosos rapazes concordaram em abdicar da sua brincadeira, sabendo que as prendas do seu avô valiam sempre a pena. Era um ritual a que os habituara desde bem pequenos, pois sempre que falava em dar-lhes prendas o que realmente fazia era contar-lhes uma das suas histórias. Histórias que os deixavam atentos a cada palavra e gesto, enchendo-os de perguntas sem fim para as quais o seu avô tinha sempre resposta.