segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Monotonia

Farto de ouvir aquele tick-tick constante, decidiu descer as escadas. Os degraus estavam frios como tudo o resto. Como tudo o resto eram feitos de pedra. Fantástica na estação quente, arrepiante na estação fria. Nada a que os habitantes daquela casa não se tivessem já habituado, desde há várias gerações.

Aproximou-se da janela. O vento soprava forte lá fora, submetendo à sua vontade tudo o que com ele se cruzasse, animal ou vegetal, sem distinções. E isso era tão notório nas árvores, já tão habituadas a levar com ele que não se via uma única direita, mesmo nos pequenos momentos em que a ventania acalmava. Momentos tão pequenos, tão raros... mas tão monótonos.

domingo, 3 de outubro de 2010

O caminho é importante

Sou um pouco mais do que tento ser, um pouco menos do que tento parecer e justamente aquilo que sou.

Tento escalar montanhas de olhos vendados, mas isso não me trás qualquer felicidade. Preciso de saber qual o caminho que percorri, cada pedra em que me apoiei, cada estaca que me auxiliou na escalada. Só assim posso perceber o que me trouxe até aqui e fez com que conseguisse chegar ao topo desta montanha. De outro modo nada faz sentido. É como se ainda estivesse no sopé do monte, num valezinho por aí.

E que utilidade teria isso? Para quê dar-me ao trabalho de fazer esta escalada se não estou consciente de como a fiz? Para quê dar-me a este trabalho, se não aprendi nada com isto, se não vou saber fazê-lo outra vez? Só assim é que a vista que contemplo agora vale a pena. Só sabendo que foi através do meu esforço e dedicação que aqui cheguei e não porque um ser alado qualquer me deixou aqui. Quem diz um ser alado qualquer, diz um simples avião ou helicóptero. Se o que eu queria era chegar ao topo da montanha e não experimentar a queda de pára-quedas, não faz qualquer sentido.

Não que fazer sentido seja um requisito, porque não é. A partir do momento em que estou de olhos vendados, é a menor das minhas preocupações.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eu caço pinguins multi-cor

Existem pinguins multi-cor que não se deixam apanhar nem por nada.

Sei bem do que falo, pois passei uma mão cheia de anos a tentar apanha-los sem qualquer sucesso. Quando estava mesmo, mesmo, meeesmo quase a captura-los, desapareciam magicamente, sem dó nem piedade.

Um dia montei uma armadilha que parecia perfeita! Nós bem apertados, camuflagem de alta qualidade, isco no sítio, alvo quase a aproximar-se! Mas tudo isto foi em vão... Como em todas as outras vezes o pinguim multi-cor desapareceu no momento chave.

Ai, ai... passei uma vida inteira a tentar apanha-los e não consegui sequer ver um que fosse pinguim, quanto mais multi-cor. Que desgraça.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Hipnose

As estrelas brilham no céu azul escuro e a brisa marinha deixa-se ocultar pelo forte odor a tabaco que paira no ar. A música enche os ouvidos de todos os que se rendem ao seu ritmo hipnótico, relaxando os sentidos num transe subtil.